29.11.09

Haicais de Isnelda Weise


na inerte manhã
o canto do pássaro evoca
a voz da floresta.




rubra aurora clama
por gérmen de liberdade
no encanto do vôo..

Haicais de Isnelda Weise

 
nas asas de um sonho
voejando entre o azul- celeste
pássaros do acaso.


Haicais - Isnelda


carcaça refeita
com sangue de prisioneiros
nos trilhos da dor.

após a chegada
ao fim do mundo, um trem
lembrando que há vida.

19.1.09

Haicais - Isnelda

Haicais - Isnelda Weise

Postado por AguAlento


em tempo de pera
no pomar abandonado
crianças caladas.


ah! árvore antiga
promete em galhos floridos
geleia de pera.



do quintal adentra
pela vidraça entreaberta
aroma de pera.


da pera madura
sumo escorre melando
a mão da menina.


sob mesa redonda
numa fruteira de vidro
peras verdolengas.

18.12.08

Natal - 2008


Árvore De Natal

Árvore De Natal


De verde vestida procura
Por mais um Natal - canto e crença
Cobertos de brilho - bonança
Estrela entre tragédia escura.

Bolas com nuança prateada
Após o pranto das águas
Luzes, borboletas mais laços
Abraços em estação - mágoa.

Verde eclodir redescobre
Um tempo de luz- esperança
Iluminando-nos com sua promessa.

Hoje é Natal... Cristo é nobre
Confirma junto a ela: é criança
A fé que do pó recomeça.



Bumenau/Natal 2008
Isnelda Weise



Cheias e devastação no Vale Do Itajaí - Novembro de 2008

estrela ilumina
posteridade e bonança
cobertas de lama.

é Noite Feliz
sombra, angústia e fé acendem
luzes da cidade.

morros desmoronam
pó, pó: cobre a esperança
de um desabrigado.

silêncio na rua
hoje o verde vale verte
lama e comoção.

um grito na noite
mais labaredas ao longe
clareando o caos.


depois do caos: vida
presença dos que se foram
num brado - esperança.


enfrentando entulhos
uma garota procura
sua velha boneca

Isnelda Weise

BARCOS - Haicais Isnelda Weise

na sua curva, um barco
em águas turvas ou claras
abarcando o rio.


barco moradia
emborca em dias de tormenta
sempre doce lar.


noite prazerosa
águas balançando o barco
embalam meus sonhos.


seu leme: quimera
de cais em cais barco embarca
saudades que vão.

7.9.08

canal se espreguiça
entre casas coroadas
pelo azul do céu.

isnelda weise





flores nas janelas

e enxaimel nas fachadas

longe o (e) terno lar.

isnelda weise

6.9.08


sob a ponte, o rio
mescla de postal e lide
num só navegar.

isnelda weise

HAICAIS - Isnelda Weise

saudosas glicínias
lembranças de um tempo ido
em cachos lilases.
isnelda weise
balança suspensa
no equilíbrio das flores
prenúncio de paz.


isnelda weise

Pontes




fugaz mão humana
ergue pontes sobre rios
doutro lado: alguém?
isnelda weise

Haicai- Telhados Heidelberg



telhados acolhem
vida que encobre presença
de (des) conhecidos.


isnelda weise

Museu da Comunicão


civilizações
guardam na palavra escrita
séculos de luz.

Isnelda Weise


Rio Main

torre entre o bosque
e o rio manso que os ladeia

espelhos da paz.

isnelda weise


30.8.08

Haicai - Isnelda Weise

no rio prateado
depois de longa jornada
raízes profundas.

isnelda weise


24.7.08

Sobre haicai - por Lorreine Beatrice Petters

Um pássaro brincando numa poça d'água. Um gato espreguiçando-se no telhado. Um raio de sol agraciando a flor na manhã. Instantes que passam despercebidos pelo dia-a-dia, mas que, quando observados, despertam em nós uma vontade de registrá-los de forma mais definitiva do que na frágil memória das retinas.
Uma das maneiras mais típicas de fotografar uma imagem, quando se pretende usar as palavras, é o haicai. De origem oriental, o haicai é muito mais que uma manifestação textual, é uma espécie de meditação que faz nossa atenção se voltar para a percepção do presente e nada além. Se na meditação tradicional, a atenção está focada na respiração, no haicai ela se volta (quase sempre) para a natureza. Um exercício que acaba por nos despertar para os pequenos encantos da vida e para momentos de rara e simples beleza, como neste exemplo de José Neres Reis:

Clara luz da lua
dança nas poças d'água
com o vento suave.

Enquanto a forma desses micropoemas é composta por 17 sílabas métricas, divididas em 3 versos (versos são as linhas do poema), o conteúdo está sempre relacionado a algo físico marcado pelo momento presente, transmitindo uma noção de efemeridade. O haicai, também chamado de haiku (em japonês), é despido de sentimentalismos e emoções. Traja unicamente a expressão sensória do momento, retratando uma experiência. Na tradição japonesa, os haicais devem expressar a transitoriedade da vida, expressão que é evidenciada através do uso de termos referentes às estações do ano, os chamados kigos.
Escrito por Isnelda Weise, o haicai a seguir revela elementos que nos transportam à primavera:

belas borboletas
de jardim em jardim pousam
sobre a flor: poema

A tradição de retratar as belezas das estações do ano a partir dos haicais iniciou-se com Matsuo Bashô (1644-1696), guerreiro samurai que abandonou tudo para cair na estrada e viver o presente (um verdadeiro presente a sua própria alma). Para Bashô, fazer haicais era quase como respirar, um estilo de vida baseado na forma inspiradora de contemplar a natureza.
No Brasil, o haicai também possui admiradores e criadores ávidos, com manifestações que vão desde as formas tradicionais às contemporâneas, que não seguem a métrica e ampliam as possibilidades temáticas, como neste exemplo de Millor Fernandes:

Na poça da rua
O vira-lata
Lambe a Lua.

O haicai é exatamente assim, retrata a exatidão do momento.

23.7.08

Três haicais para MEL, minha cachorrinha- Isnelda Weise

depois da estrada

Mel vira a lata da vida

proclamando um lar.



no meio da rua

Mel sem banho nem sustento

esgravata sonhos .



no assoalho claro

manchas depois da chegada

Mel germina vida.

14.7.08

Pôr-do-sol em Blumenau

Três haicais para uma paisagem- Isnelda Weise


pôr- do- sol acende
labaredas que acalentam
telhados da tarde.


quando o sol se põe
cinge as sombras da cidade
com rubro horizonte.



por um só momento
sobre a cidade em penumbra
arde o sol poente.


Três haicais para uma mulher (Mara, sobrinha)

Mara, marinheira

sem timoneiro, só mar

sempre à deriva .



do mar, Mara leva

sal sobre a pele morena

e a alma lavada.



envolta em silêncio

sob o azul do céu desliza

Mara sobre o mar.